alvorada

 
vimos o nascer dos dias, várias vezes,
sem palavras, sem nos vermos.
tínhamos ganho a forma introspectiva
e a amizade que nos unia aos horizontes.
os dias já nasciam com despedidas.
eu acreditei no teu corpo impulsivo.
tudo era verdade e verdadeiro,
como o marulho e as construções,
na areia. de todos ficou a memória.
 

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conto-te agora

 

nas artérias um caminho
de cidade pequena.
talvez me vista de suor
que reluta em explicar-se
sem ser em alegria,
como se fosse a primavera
numa aproximação de desígnio
que a cada coisa dá um valor
sem preço, ou como um jardim
num indício de alvorada límpida.

 

sabes como é a vida…

 
a ria, que por amor beija o mar
e para laguna deixar de ser,
também reflecte a cidade em si,
num abraço de vida e afecto.
eu, que beijo o ar,
por determinação e princípios,
possuo fortalezas de convicções
que se desmoronam quando chegas…
que posso eu dizer, agora, a saudade?
 

como alento

 
ontem, dei todo um soneto às gaivotas!
era um novo soneto com o perfume do mar,
vários traços de pôr-do-sol e ilhotas,
e abraços, daqueles sinceros e de alentar.
dei-o partido em pedacinhos de sentidos
sem arestas, descalços e despidos;
dei-o com todo o cuidado e desprendimento.
desisti de dá-los aos pombos correios,
que os traziam de volta, em sofrimento,
debicados por fora e cansados dos passeios.
 

desfile de naturalidades

 
o céu enche-se de mar e maresia
na linha do perfeito horizonte, tão próximo;
o mar procura beijar as raízes das árvores
e enche-se de razões de sal e de sons antigos;
as árvores enchem-se de folhas distantes,
mas que não se sentem sós, e fogem do mar;
as folhas enchem-se de letras estranhas,
de várias cores, tamanhos e formas;
as letras vão caindo, caladas, sobre o chão,
formando pequenos grupos de manifestação;
o chão procura ser o substrato potenciador
de vida, o rumo certo, mas dorme, sob o céu…
eu encho-me de céu, de mar, de árvores, de folhas,
de letras, de chão, de céu… e de intervalos!
no intervalo, escrevo poemas com o que resta
e, por vezes, resto apenas eu!

 

a figura de uma ilusão

 
gosto da parte invisível do amor.
gosto de ficar a olhar para tuas cores
e nelas urdir histórias em alvoroço,
contudo, protectoras e carinhosas;
de inspirar profundamente o teu odor
e inebriar os sentidos embaraçados,
que nem procuram fazer sentido;
de tactear leve e lentamente as formas
e de mapeá-las mentalmente, sem prazo.
como é anedótico o meu sonho de sonho
construído, porque não te tenho e nada é
para sempre!
 

de forma que é assim

 

há uma forma sem sombra
que vejo em sonhos e trago em mim.
uma forma repleta de recordações,
contudo, coisas que eu nunca vi.
fala de projectos em sonhos
que nunca se vão concretizar.
um parecer distinto e audaz;
uma linha sem horizonte;
momentos engalanados…
a forma de amar.

 

se olharmos com atenção

 

é assim o sorriso de certas palavras: consistente.
um sorriso firme, tão genuíno e contagiante,
que percorre a noite como um foco de luz;
que demora na retina e se propaga docemente
a todos os sentidos, capaz de apaziguar o pesar
dos dias que escarnecem a existência circundante.
sorriso com perfumes, com melodias, com sabores,
com tonalidades, com temperaturas, com formas;
que abraça segura, lânguida e despudoradamente,
num arrebatamento manifesto e próximo do infinito.

 

nos dias inabaláveis

 

acordámos o cerco à fronteira daquele medo
que adormece quase todas as manhãs,
próximo da avenida pejada de gente,
e que desperta quase todas as noites,
naquelas ruas estreitas, tortas e escuras,
que rondam o quarto, como fases cheias,
carregadas de lua sem desculpas ou corpo.
adiámos a tristeza, ainda que seja num hiato,
num deferimento completo da vida,
para quem uma vida inteira é insuficiente.

 

mais coisa, menos coisa

 

há tempo para umas palavras
que se evadiram da poesia
e que se perderam pela tarde,
repartindo silêncios pelos olhos,
lugares imensos que se expõem
nas minhas mãos repletas de longe.
longe nem sempre é a distância,
pode ser a circunstância de escrever
espaços no céu e na água do mar,
o mesmo mar de corpo empanturrado
de gritos de poemas contundentes
e de caminhos em construção.